Contágio do Otimismo

Enviado por gabi mundim em Seg, 05/05/2008 - 17:19.

Notícia, reportagem, matéria, comentário, editorial, coluna... Não importa o estilo, o objetivo, o lugar que ocupa no veículo, não importa nem o assunto de que tratam: os textos jornalísticos são negativistas.

O mundo parece caminhar para um desastroso ponto de desequilíbrio, a humanidade dá sinais de loucura e de cansaço simultâneos e com relação de causa e efeito entre si. Tudo isso precisa ser reportado à sociedade, claro. As catástrofes movimentam milhões a mais do que as boas notícias, mas, paralelo a isso, manifestam-se cada vez mais pessoas dizendo não à mídia, defendendo a posição de que não ler jornal e não assistir a TV são saídas necessárias pra não se deixar contaminar pelo desânimo de viver, pela decepção com a raça humana.

A comunicação é um dos principais agregadores da população; ela tem o poder de colocar todo o mundo numa mesma página de conhecimento. Pode formar opiniões, pontos de vista, decisões, atitudes. Assim, a massa que surge em parte moldada por essa comunicação é desesperançosa e pessimista. Preguiçosa não por falta de força, mas falta de fé.

O conteúdo é difícil mudar agora – se o que ocorre é negativo, precisa ser publicado. Mas existe uma maneira de não alimentar essa preguiça.

Os textos são locais de denúncia, apontamento, crítica, julgamento e desabafo. A leitura vira uma grande sessão de descarrego da opinião pública. Pelas entrelinhas, chegamos a imaginar o inconformado escritor balançando a cabeça ou produzindo aquele sonzinho simpático de tsc-tsc-tsc. Só que só extravasar a indignação lançando mão de recursos como a investigação factual, argumentação lógica e a retórica da indignação só gera mais desconforto nas pessoas. E pior, cria a sensação coletiva de que estamos todos no mesmo barco, não somente o indivíduo, o bairro ou o país, mas todo mundo sente e vive as mesmas coisas. Ora, se assim o é, não tem como mudar, pois nos sentimos impotentes diante da onipresença dos problemas de naturezas diversas: violência, corrupção, doenças, guerras, loucuras.

A maneira de não alimentar essa sensação é mudar a forma dessa escrita. Mesmo redações mais vigorosas têm um teor crítico que atinge apenas a nossa razão. E essa nossa razão há de concordar sempre que o “buraco é mais embaixo” do que nossa vã filosofia ou nosso micro poder de atuação podem atingir. Porém existe uma faculdade interna no homem que não vê o menor sentido nessa limitação. Uma voz que parece repetir que “alguma coisa está fora da ordem”. É precisamente essa faculdade que o discurso público precisa começar a cutucar.

O intelecto já foi convencido. Todo mundo entende que estamos à beira do tão falado colapso da humanidade. Mas o espírito, o coração, o inconsciente, a sensibilidade, o lado esquerdo do cérebro ou qualquer que seja o nome dessa faculdade não pode continuar adormecida e abafada pela razão ilumista e prepotente que julga tudo saber e tudo prever.

Um tom de otimismo, um quê de esperança, uma imposição de bravura sábia e doce têm o poder de despertar aquela certeza de que sim, podemos caminhar para uma vida muito melhor do que essa que estamos tendo. Colocar esperança no texto é motivar o bem e a atitude positiva. Gerar uma onda de bom-humor, de vontade em vez da indignação paralisante. É publicar a mesma notícia, é contar a exata mesma história. Mas dirigindo-se mais à emoção e menos à razão que vai nos fazer agir.